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O que fazer com os anos que ganhamos

sitemonalisabarros
22 de set.
4 min de leitura
A sociedade precisa aprender a lidar com a longevidade e a morte, transformando a visão sobre os anos que ganhamos em uma conquista.

Ultimamente, tenho percebido algo que antes passava despercebido. Meu marido chega em casa e o semblante já vem carregado. Outro amigo do banco onde trabalhou por tantos anos se foi. A notícia chega, ele se senta, o olhar perde o foco por um instante — e eu sei que está revisitando os pequenos detalhes da convivência, o café compartilhado, as histórias que só aquela turma conhecia.


Envelhecer é isto: perder gente. Gente que amamos, gente que nos acompanhou, gente que carrega versões de nós que já não existem mais. A velhice é o palco onde a morte se apresenta com mais frequência. Não como tragédia — como companheira de cena. A cada ano que passa, o coro de ausências fica maior.


E isso me leva a pensar: estamos preparados para viver tanto?


A expectativa de vida no Brasil é de 73 anos. Muitos vivem mais — 80, 85, 90 anos. Isso é uma vitória extraordinária da civilização. No ano de 1900, a expectativa de vida mal chegava aos 34 anos. Hoje, beira os 76. A ciência nos deu décadas extras de existência. Mas alguém nos ensinou o que fazer com elas?


A sociedade, que comemora os avanços da medicina, não sabe o que fazer com as pessoas que vivem mais. O idoso é tratado como ônus fiscal, como ameaça à Previdência, como gasto na saúde pública. As manchetes gritam sobre o rombo dos sistemas de pensão, sobre o custo dos aposentados. Raramente celebram o fato de que estamos vivendo mais. Raramente perguntam: como dar qualidade a esses anos extras?


Perdi minha mãe. Perdi meu primo. Perdi amigos queridos. E a cada despedida, percebo que o luto não é apenas sobre a pessoa que se foi — é sobre o que ela carregava de mim que também se despedaça. São pedaços de memória que vão com ela. Histórias que só nós duas conhecíamos. Cheiros, vozes, gestos que ninguém mais no mundo testemunhou.

A morte não é um erro do sistema. Não é uma falha a ser corrigida pela ciência. A morte é o desfecho natural do desenvolvimento humano — um estágio para o qual fomos empurrados sem preparação, como alunos que chegam à prova final sem ter visto a matéria.


Precisamos de uma educação para a morte. Precisamos aprender a envelhecer, a nos despedir, a deixar ir. Precisamos de espaços sociais que acolham o idoso não como peso, mas como testemunha viva da nossa história coletiva. Precisamos parar de tratar a longevidade como ameaça e começar a tratá-la como o que ela realmente é: uma conquista da humanidade.


O desafio do nosso tempo não é viver mais. É saber o que fazer com o tempo que ganhamos. É adicionar vida aos anos, e não apenas anos à vida.


Perguntas para refletir — sozinho ou em casal

Se eu soubesse que me restam 10 anos de vida, o que eu faria de diferente a partir de amanhã?

  • As pessoas que amo sabem o que sinto por elas? Ou estou deixando para depois o que deveria ser dito hoje?

  • Tenho medo de morrer ou tenho medo de não ter vivido o suficiente?

  • O que quero deixar — não em bens materiais, mas em memória, afeto, ensinamento?

  • Já conversei com minha família sobre meus desejos para o final da vida? Eles sabem o que eu gostaria que fizessem?

  • Estou cuidando do meu corpo e da minha mente como quem planeja aproveitar os anos que ainda virão?

  • Se a morte chegar hoje, o que ficará por fazer? E o que já está feito que me traz paz?


Orientações práticas para se preparar para este momento

  1. Converse sobre a morte com quem você ama. O silêncio em volta da morte só aumenta o medo. Falar sobre o assunto — com respeito, sem pressa — é o primeiro passo para tirá-lo do lugar de tabu. Pergunte aos seus pais ou avós o que eles gostariam para o final da vida. E conte a eles o que você sente.

  2. Deixe suas vontades registradas. Não precisa ser um testamento elaborado. Pode ser uma conversa, uma carta, um documento simples. O importante é que as pessoas saibam: você prefere cuidados paliativos em casa ou no hospital? Quer que seus filhos estejam presentes? Tem alguma música, leitura ou ritual que gostaria que fizessem?

  3. Invista em qualidade de vida agora. Não espere a velhice chegar para cuidar de você. Alimentação, movimento, sono, vínculos — o que você faz hoje define como estará amanhã. Cada ano ganho precisa ser um ano vivido.

  4. Fortaleça seus laços afetivos. A solidão na velhice não é falta de gente por perto — é falta de gente que importa. Cultive amizades verdadeiras. Perdoe mágoas antigas. Aproxime-se de quem faz seu coração descansar.

  5. Busque apoio profissional se precisar. Psicólogos, grupos de apoio ao luto e à velhice, espaços de acolhimento espiritual — tudo isso existe e pode ajudar. Não enfrente o medo da morte sozinho. No ambulatório de luto perinatal onde atendo, vejo todos os dias o poder que tem uma escuta qualificada. O mesmo vale para quem envelhece: o acolhimento faz toda a diferença.

  6. Crie rituais de despedida em vida. Agradeça. Abrace. Diga o que precisa ser dito. Não espere o leito de hospital para isso. Os melhores rituais são os que fazemos com a pessoa ainda ao nosso lado.

 
 
 

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