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O ventre marcado pelo silêncio: a geografia do racismo obstétrico

sitemonalisabarros
11 de set.
2 min de leitura

Atualizado: 22 de set.


O racismo obstétrico resulta em altas taxas de morbidade e mortalidade materna entre mulheres negras, exigindo mudanças estruturais urgentes.

Maria não conheceu Alyne, mas carregava no corpo a mesma geografia de exclusão: a pele retinta, o endereço na periferia e o ventre que, para o sistema, parecia não ter direito ao protagonismo. Enquanto caminhava para a última consulta de pré-natal, iniciada tardiamente como ocorre com 13,4% das mulheres negras (LEAL et al., 2025), ela sentia o peso de uma estatística invisível, mas real. No Brasil de hoje, o risco de uma mulher preta como ela morrer por causas maternas é 2,3 vezes maior do que o de uma mulher branca (IEPS, 2025; PIMENTEL, 2023).


A jornada de Maria não era apenas física; era uma peregrinação. Quando as contrações apertaram, ela enfrentou o medo que assombra quase 20% das mulheres negras e pardas: a "peregrinação pelo parto", batendo à porta de maternidades e ouvindo que "não há vagas" (PV MULHER, 2023). No corredor frio do hospital, Maria tornou-se um número na lógica da medicina tecnocrática, onde a autonomia é subtraída em prol de protocolos que ignoram a subjetividade da parturiente (ASSIS, 2018).


O que Maria mais temia era o "mito da força". No Brasil, sobrevive a crença racista de que corpos negros são mais resistentes à dor, um legado das cirurgias experimentais sem anestesia do período escravocrata (SILVA; TORTATO, 2018). Essa falácia reflete-se em dados alarmantes: mulheres negras recebem menos analgesia e anestesia local em partos normais e têm acesso reduzido a métodos farmacológicos de alívio da dor (SANTANA et al., 2024; PV MULHER, 2023). Maria sentiu isso na pele: o corte da episiotomia, uma intervenção sem respaldo científico, sem consentimento, sem o alívio adequado e o silenciamento de seus gritos, interpretados como "barulho" e não como expressão de sofrimento, são expressões da violência obstétrica.


As complicações materno-infantis também possuem cor. Mulheres negras apresentam maiores taxas de morbidade materna grave, como pré-eclampsia e hemorragias, mas são as que menos acessam leitos de UTI quando o quadro se agrava (SOUZA et al., 2025; ASSIS, 2018). Essa negligência culmina em uma tragédia evitável: 92% das mortes maternas no Brasil poderiam ser impedidas com assistência adequada e equânime (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 2026).


Essa violência, o racismo obstétrico, é a fusão perversa entre o machismo e o racismo institucional (PEDROSA, 2025). Ela interrompe projetos de vida, como o de Alyne Pimentel, morta aos 28 anos por descaso médico. Hoje, o Brasil busca reparar essa memória com a Rede Alyne, que estabelece a meta de reduzir em 50% a mortalidade materna de mulheres negras até 2027 (MONNERAT, 2025).


Para Maria, a mudança precisa ser estrutural. O nascimento deve deixar de ser um encontro com a vulnerabilidade imposta pela cor da pele para tornar-se, enfim, um ato de dignidade e esperança.


 
 
 

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